Fri Jan 09 2026

2026, Vibecoding?

A utopia tecnológica

Segundo o Gemini (IA do Google), “a utopia tecnológica é a crença de que avanços científicos e tecnológicos podem criar uma sociedade ideal, eliminando problemas como escassez, sofrimento e até a morte, através de inovações como cidades inteligentes, IA e biotecnologia”_.

Pois é, já pensou em um mundo onde a gente não precisasse mais trabalhar? Um mundo onde todos os recursos fossem automaticamente extraídos, processados e distribuídos da forma mais otimizada possível, e todos nós tivéssemos tudo o que quiséssemos facilmente em nosso alcance?

Caso não conheça, Wall-E é um filme de 2008, Disney e Pixar, que expõe de forma bem clara a problemática dessa ideia, de uma utopia tecnológica. No filme, os humanos vivem em uma nave totalmente automatizada, onde robôs e o sistema fazem de tudo, desde andar até escolher qual vai ser a comida. O que era para ser conforto absoluto, uma vida “perfeita”, acaba resultando em uma população humana muito triste, fisicamente degenerada, intelectualmente vazia e emocionalmente anestesiada. A tecnologia, que deveria servir ao humano, acaba substituindo a necessidade de ser humano.

O impacto das IAs

Estamos longe de uma situação assim, porém nem tanto, especialmente em certos contextos. O ano de 2025 foi marcado por muitas coisas, mas no mundo da tecnologia com certeza as IAs foram personagens de destaque. As IAs generativas são capazes de coisas que, há um ou dois anos atrás, achavam-se impossíveis, e as novas ferramentas de automatização, com o uso de IAs, deram origem a muitos bots, cursos, reuniões, campanhas corporativas sobre o “tech-first” e, sobretudo, a muitas demissões.

Há muito o que se pensar sobre isso tudo e há muita especulação de todas as formas em diversos contextos. Aqueles que antes eram responsáveis por mexer nas planilhas, fazendo agendamentos, registros, planejamentos, relatórios e gráficos de repente são, em grande parte, dispensáveis. E esses são só exemplos. A empresa consegue trocar um time quase inteiro pela assinatura de três serviços de IA, muito mais baratos, e um humano que se responsabilize em guiá-los e dar o famoso check de sanidade. A renda vai saindo da mão de obra que antes formava pequenas comunidades em torno da empresa, em sentido amplo, e vai passando para as grandes techs – Anthropic, Google, OpenAI, Microsoft, X etc. Vem aquele sentimento de ficar especulando onde isso vai parar, conjecturas, hipóteses; mas enquanto essa é uma preocupação coletiva, e importante, eu também crio planos de ação para o meu próprio futuro.

Ano novo, e agora?

Fiz uma introdução muito longa? Com certeza. Estou exagerando? Discutível. Fico preocupado, mas ao mesmo tempo há algo de humano em mim que se empolga com chacoalhões e com perspectivas de mudanças. Por conta de tudo isso, nessa virada de ano, eu parei para refletir um pouco sobre a minha vida e a de minha família, visto que eu gosto de explorar o poder das tecnologias de software, e é disso que eu estou tentando viver.

Gosto muito de programar, de entender algoritmos, padrões nos dados, solucionar problemas de fluxo desses dados, criar interfaces, sistemas customizáveis, visualizações, simulações e, geral e concretamente, ambientes digitais bonitos e interessantes. Porém, eu também vi todo o burburinho, as polêmicas, os bons e maus exemplos do poder da IA em fazer esse trabalho de gerar o código, o famoso vibecoding.

Já faz um tempo que eu uso os chats de IA para me ajudar a programar, tirando dúvidas, explorando possibilidades, encontrando bugs etc, mas, depois de me dar um período de descanso das máquinas e do trabalho, mergulhei em uma série de testes mais sérios e, depois de mais alguns dias, cheguei à conclusão de que é inegável que, apesar de alguns erros e chateações, eu consigo produzir muito mais escrevendo mais prompts e menos código, me preocupando principalmente em ter as ideias, tomar as decisões e orquestrar todo o processo do que com a sintaxe da linguagem de programação e das bibliotecas. Inclusive, revisando todo esse código, aprendi coisas que provavelmente não teriam cruzado meu caminho tão fácil, atalhos que eu antes desconhecia.

Confesso que isso me assusta. Será que eu terei uma carreira legal na área? Será que programar vai se tornar um nicho cultural, um hobby para amadores da arte do código? De qualquer forma, ainda sou uma pessoa inventiva, ainda sigo me sentindo realizado em pressionar os limites da criatividade e ver ideias se transformando de letrinhas em espaços, cores e conexões. A mensagem que fica é a de que, embora devamos nos manter críticos, cautelosos e muitas vezes céticos aos usos e impactos das inteligências artificiais, seremos techno-dândis ingênuos se não começarmos a dar a essas ferramentas o nosso próprio uso.

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